

Coisas e Gentes da Nossa Terra
Tradições, Usos e Costumes:
A última Partilha do Burro, Casamentos, e Enterro do Entrudo na nossa aldeia, foi no ano de 1977. Esta tradição acontecia todos os anos na altura do Entrudo. Também o Carnaval, conhecido por cá na altura por Entrudo, era tradição obrigatória até final da década de 1970 e mesmo início de 1980. Lembramo-nos dos especialistas e ferrenhos na arte, que nunca deixaram morrer a tradição, nem que chovesse “a cântaros”, como era o “líder” Toninho Rolo, filhos, e o sogro Manuel Coroado, conhecido pelo “Ti Carvela e Terra Quente”, que residia em Edral do Concelho de Vinhais, o Joaquim “Padeiro”, o José “Sarrá” etc. Também outros já mais jovens como o Joaquim Leite Contins, Zé Manuel Nogueira, Elias Ervões e irmãos, Lilo, e outros mais.
Ouvimos dizer que os “Ti Carvela e Sarrá”, eram tão ferrenhos nesta arte, que um certo dia, mataram uma burra(o) velha(o) para os lados de Monte Cerdeira, tiraram-lhe a pele, para fazer um bombo para os instrumentos do Entrudo que se aproximava, dizendo ao dono que a(o) encontraram morta(o).
A partilha ou Divisão do Burro (Testamento) e os casamentos do entrudo, era uma tradição que se realizava na última quinta-feira antes do carnaval. Era engraçado de se ouvir, pois estava tudo sempre na expectativa, em particular as moças casadoiras e até algumas senhoras solteiras, que não gostavam nada do que ouviam, nomeadamente dos casamentos, quando o par não era a seu gosto, e também se lhes tivesse calhado um verso com uma das partes do animal que não fosse do seu agrado.
No dia seguinte a partilha do burro e os casamentos eram tema de conversa em toda a aldeia; se porventura alguma viesse a reclamar, no ano seguinte seria bem pior. Havia versos brejeiros e casamentos para todos os gostos.
Os rapazes já adultos escreviam quadras testamenteiras destinadas às raparigas e solteironas que depois gritam bem alto para toda a povoação ouvir, revelando os defeitos e virtudes de cada uma, ou um. Nessa noite, os rapazes divididos pelos lugares mais altos de cada bairro da aldeia disparavam contra o ar, como se tivessem morto um burro; ouvia-se o zurrar e ao segundo tiro de caçadeira era dada a notícia que o burro morreu - os rapazes chamam-se entre si de compadres. Seguia-se a "partilha/divisão do burro e casamentos”, feita através da récita das quadras. Para o efeito, usavam-se vários funis do vinho, conhecidos por embudes a servir de altifalantes.
Alguns bons especialistas nos anos 1950 e 1960: Irmãos Toninho, Manuel e João Rôlo; Zé Gonçalves (Gago); Alípio Cardoso; Zé Cavalheiro; irmãos Manuel, Zé, e Óscar Barrosão, entre outros.
A última Partilha do Burro e Casamentos, foi feita pelos seguintes conterrâneos: António Neves (Tótó); Lilo Rôlo; Carlos Cardoso; Carlos e Jorge Fontoura; Agenor Rôlo e irmão Zé; Ricardo Moreiras, Alexandre Mairos, Helder e João Barrosão, entre outros. Já quanto ao Enterro do Entrudo desse mesmo ano, a organização foi dos mesmos elementos, mas com a participação de toda a juventude e até de muitos adultos (perto de 200), contribuíram para o sucesso ainda hoje recordado. Não podemos deixar esquecido o falecido Zé Lopes, que fazia de padre por baixo do palio, seguindo à frente da urna improvisada, juntamente com algumas carpideiras e “familiares enlutados “ do falecido Entrudo.
Também outras tradições populares se foram perdendo progressivamente no tempo, como os jogos aos domingos e dias Santos: Chino, Fito e Pedra, que se realizavam quase sempre perto das tavernas. Havia um local mais distante que era junto à amoreira, agora rua de Stª. Maria Madalena. As tradições da Serrada da Velha, do Rapa na noite de natal, do Cantar dos Reis, Levar o Ramo ao Padrinho, das Maias na visita Pascal e do Toque das Trindades, umas, a partir do final da década de 1970, e outras, do final da década de 1980, seguiram o mesmo caminho.
O jogo do rapa na noite de natal (rapa/tira, deixa, põe) era jogado com pinhões, extraídos das pinhas dos pinheiros mansos, onde os miúdos e os adultos, mesmo até os avós, se divertiam com esse jogo, enganando-se mutuamente, para ajudar a passar parte da noite de natal. Alguns (muito poucos) mais endinheirados, jogavam também com rebuçados, mais propriamente conhecidos por “catraios”, mas era caso raro.
No cantar dos reis, se porventura, as casas a quem se ia cantar, não abrissem a porta ou não oferecessem nada, era costume “ameaçar” em voz alta, com a cantiga/verso das “Barbas de Farelos”, assim cantada/recitada:
Estes reis que nós cantámos; Voltemo-los a descantar; Estes Barbas de Farelos; Não têm nada para nos dar.
Um verso: Estes reis que nós cantámos; Não são pagos com dinheiro; São pagos com vinho fino; E chouriças do fumeiro.
A “Serra(da) da Velha”, era uma brincadeira, tanto de jovens, como de adultos, que se realizava no meio da Quaresma, a uma quarta-feira.
Rapazes e raparigas andavam em grupo pela rua ao anoitecer com umas latas velhas a raspar nas paredes das casas das mulheres mais idosas, mas estas tinham que ser obrigatoriamente “avós”, dizendo em voz alta o seguinte: Raspa/Serra na velha, Raspa/Serra na velha, Raspa/Serra na velha …….. :
- Vamos serrar a velha?. ; Vamoooos!.; Para o que é que há-de servir o corpo dela!.; (diziam em voz alta várias coisas que lhe viessem de momento à cabeça). Enquanto serravam a mulher, fingindo serrar o caldeiro velho, os rapazes proclamavam em altas vozes para os presentes, uma quadra brejeira, alusiva à data e à pessoa (velha).
Estas, aborrecidas com o barulho nas paredes das suas casas e com tais dizeres, já sabendo da tradição desse dia, tinham sempre à mão, um púcaro ou tacho de água, ou uma “penicada” , para atiram em cima dessa “criançada”. O que valia é que as paredes das casas eram de pedra e não estavam pintadas com cal.
Pela noite dentro, os mais velhos, percorriam todos os bairros da aldeia com um odre do vinho em cima de um burro e uma zorra a reboque, recitando versos tradicionais e pedindo em cada casa uma pinga de vinho para beber, e outra, para a velhinha, destinada a encher o obre. Se eventualmente o pedido não fosse atendido, raspavam com latas velhas nas paredes das casas das “velhas” e serravam na zorra de madeira, dizendo: raspa e serra na velha, raspa e serra na velha, raspa e serra na velha…. .
O Ramo ao Padrinho: Era no dia de Ramos, antes da Páscoa, quase sempre depois da missa. Os “miúdos e até alguns graúdos” enfeitavam um ramo de oliveira com bolachas e rebuçados pendurados por fios, e iam a caso do padrinho ou madrinha oferecê-lo, e desejar-lhe boa semana de Páscoa, sempre com o pensamento numa contra-partida, que normalmente era em dinheiro (moedas). Os com mais posses, enfeitavam melhor o ramo, com mais alguns doces, e até alguns, com um salpicão e/ou linguiça penduro. Esta tradição já quase não existe no presente ano de 2010. Contudo, contaram-nos algumas pessoas que presenciaram este ano um sobrinho, levar o ramo ao padrinho, da forma que atrás referimos. Foi o afilhado José Martins Rôlo, de 53 anos de idade, levar o ramo enfeitado ao padrinho Artur “Feijão” de 83, em que este, agradeceu e retribuiu, com a oferta de um garrafão de cinco litros de azeite ao afilhado. “ Lá viu ele que o afilhado não colhia azeite e era só isto que ele necessitava”.
A tradição das “ Maias”, consistia no seguinte: Havia sempre um enorme grupo de miúdos e até alguns bastante já graúdos, que acompanhavam o Sr. Padre em cortejo na visita pascal a todas as casas da aldeia. No fim da visita, era normal os donos das casas oferecerem aos acompanhantes (miúdos) alguma coisa para comer, conhecida por “maias” que normalmente eram, quase sempre, figos secos, castanhas, maçãs e até algumas nozes, atiradas, salvo raras excepções, da varanda ou da janela para o chão do pátio ou da rua (estupidez da época). Quando a casa era mais abastada, a miudagem estava sempre à espera que a oferta fosse um pouco melhor, como, por exemplo: rebuçados “catraios” ou bolachas.
As “Maias”, eram sempre pedidas pelos miúdos em voz alta quando o Sr. Padre e os restantes elementos do grupo que o coadjuvavam com a Cruz de Cristo, Caldeia da Água- Benta, Sineta, e ofertas/donativos), acabassem a visita, que era o seguinte: Boa casa; Boa brasa; Bom ferrolho; Bom trambolho; Venham as “Maias”. Se porventura não oferecessem nada, diziam também em voz alta: Má casa; Má brasa; Que lhe dê uma dor de barriga (caganeira) e que lhe caia a casa em cima.
Quanto à oferta das “Maias”, concordamos com esse feito, pois era sinónimo de alguma alegria e certa pobreza à mistura. Já quanto à forma de oferecer, ou seja: atirar para o chão, assim como se fazia também nas amêndoas dos casamentos à saída da igreja na praça, era uma verdadeira estupidez, falta de respeito, de cultura e higiene.
Também a Visita Pascal, (por volta do fim da década de 1980 ou início de 1990), deixou de ser feita pelo Senhor Padre (Compasso), tendo esta festa católica sido delegada a leigos, e a tradição da abertura da porta à Cruz de Cristo crucificado está-se a perder progressivamente, deixando, de certa forma, uma enorme nostalgia desse passado católico.
O Toque das Trindades, “após o sol desaparecer e antes de anoitecer”, hora de recolha a casa, em particular os mais novatos e, onde os mais velhos , davam ordens desse dever, que todos acatavam. Os sinos da igreja tocavam todos os dias três vezes (com intervalos) para um convite a rezar a Avé-Maria. Infelizmente também esta tradição deixou de existir a partir do fim da década de 1970.
Pedir a “Bênção aos Padrinhos” e, o “Cumprimentar dos Compadres/Comadres”: Os jovens, ao passarem pelos padrinhos, avós, e até tios, para os cumprimentar, diziam o seguinte: Padrinho, dê-me a sua bênção! Beijando-lhe ao mesmo tempo a mão direita. Estes, retribuíam com a seguinte frase: Deus te abençoe meu afilhado/neto/sobrinho. Também os pais dos afilados, ao passarem (cruzarem) pelos compadres ou comadres, para se cumprimentarem, diziam da seguinte forma: Bom dia compadre/comadre, Nosso Senhor o/a salve! Estes(as), retribuíam da seguinte maneira: Boa dia compadre/comadre, Salve-o(a) Deus Nosso Senhor! Restam muito poucas pessoas idosas na nossa freguesia que ainda usam esta cultura religiosa de cumprimentar.
Houve também uma tradição muito antiga, que se realizava depois do natal ou ano novo e que já muito poucos se recordam, chamava-se “ A Chocalhada ou Cavalhada”. Os jovens e até alguns adultos, vestiam-se com alguns arreios dos animais de trabalho e andavam com eles pelas ruas numa correria e algazarra ensurdecedora, imitando-os e cantando cantigas/versos tradicionais, alguns até bastante brejeiros em frente de certas casas, já antecipadamente referenciadas. Essa tradição perdeu-se no tempo a partir das primeiras décadas do século XX (1900).
Ainda outra muito engraçada e de que toda a gente gostava, “As Serenatas”. Pela noite dentro, alguns tocadores e bons recitadores de versos, deixavam apaixonadas mensagens amorosas em frente às casas de moças casadoiras. Disseram-nos recordarem-se de alguns bons especialistas em Serenatas, tais como: os falecidos António Teixeira e Abílio “da Maria dos Santos”, e ainda, o Aníbal Barreira, “cinquenta” como era conhecido, também bom cantador de reis. Certamente haveria outros, mas foram só estes de que nos falaram.
Parte destas tradições, deixadas perder no tempo e que atravessaram gerações, seria muito importante vir a recuperá-las, pois simbolizaram alguns usos e costumes da nossa terra, valioso património cultural da época.
A história e a cultura de um povo, são tão ricas, quanto maior for o seu passado, e, Santa Valha, tem este, e muito mais passado que nos orgulha e nos enriquece.
Matança do Porco:
Até finais da década de 1980, era rara a casa da nossa terra, em que não tivesse a matança do porco, tradição que se praticava durante todo o mês de Dezembro e até ao dia 6 de Janeiro, dia de Reis.
Havia espalhados por toda a aldeia, vários especialistas na arte de “ matar e desfazer o porco. Recordamos alguns nomes: José Joaquim Rôlo; Rocha: Fernando “Pedreiro”; Francisco “Ferruge(s); Victor Cardoso; Maurício; João “Nascimenta”; Manuel “Cantarinhas”, mais tarde: Amadeu Moreiras; Agostinho Pires “Nascimenta”; José Domingues; Manuel Fontoura; Filipe Nascimento e Domingos Mosca Pires, Fernando Barreira, entre outros.
Esta tradição artesanal secular foi-se progressivamente perdendo, devido à facilidade de aquisição e oferta dos produtos com carnes e enchidos (fumeiro) de porco, do sistema industrial. Também o aparecimento dos frigoríficos e, mais tarde, das arcas congeladoras, vieram substituir as salgadeiras de conservação das carnes de porco, que tinham que durar para todo o ano.
A brincadeira ou “malandrice” da “Pedra de Lavar o Porco”, que os mais velhos faziam às crianças na matança, quando da lavagem do porco, também se perdeu com o tempo.
Por tudo isto contado, hoje só restam pouco mais que dois matadores artesanais na aldeia, o Fernando Rôlo e o Manuel “ da Lina”, arte, que só aprenderam há poucos anos.
Nas décadas de 1950, 1960 e início de 1970, houve sempre talho na nossa aldeia. O “açougueiro ou magarefe”, como se dizia nessa época, era o (falecido) Amadeu Moreiras “Pedreiro”. O último talho dele funcionou num pequeno armazém na praça, já demolido, onde hoje se encontra o coreto. O preço da carne de cordeiro, a mais vendida, já que a de vitela era só em dias festivos, rondava na década de 1960, os seis escudos (0,3€). Mais tarde, o Sr. Fernando Barreira, após ter regressado de Angola, foi matando alguns animais para venda, num baixo da sua antiga habitação.
Porquinho de Santo António:
Este “uso e Costume”, por promessa, terminou nos meados da década de 1970. O porquinho, antes de ser leiloado, chocalhava por todas as ruas dos bairros da nossa aldeia a pedir comida. A receita do leilão, revertia a favor do Santo António. (Ver Link- As Minhas Memórias)
Santa Valha, Site: 01-03-2011
Última actualização: Fevº. de 2012