MEMÓRIAS E DATAS QUE MARCARAM VÁRIOS ACONTECIMENTOS NA NOSSA TERRA

 

“As Tuas Memórias”: Este espaço está livre e destina-se a ti!.

  (Envia a tua recordação de outros tempos (AQUI)

Não deixaram jogar o meu Mário:

          Vou contar-vos uma peripécia engraçada de que me recordo desde criança, que aconteceu na nossa aldeia por volta de 1940, e que ainda é hoje em dia é ouvida frequentemente na nossa aldeia.

O campo de futebol desse tempo era no lugar das Lajes, numa propriedade agrícola da minha sogra, Laudemira Cunha (Cagigal), espaço que ainda conserva por todos o nome de “campo da bola”.

Um certo domingo soalheiro, a rapaziada, como sempre, apareceu no campo para uma partida amigável, e havia tantos jovens e até menos jovens, que se tornava difícil jogarem todos. É claro! Os menos habilidosos, como sempre, ou não jogavam, ou ficavam sempre para os últimos minutos e até segundos.

Nesse dia, o Mário não jogou por um desses motivos, e a Tia Isabel, que por vezes também ia assistir à única diversão que havia nesse tempo, não ficou nada satisfeita por não terem deixado dar uns pontapés na bola ao Mário, que até tinha deixado de ir pastorear o rebanho de gado nessa tarde, com ansiedade tal, de que o viessem a deixar jogar.

 A Tia Isabel, descontente com o facto, exclamou várias vezes a seguinte frase para várias pessoas:

Olhai!?: Um dia tão bonito e não deixaram jogar o meu Mário!

Essa frase engraçada, saída da boca da Tia Isabel, ficou gravada para sempre na memória de muitos e que ainda se conserva nos dias de hoje, quando normalmente está um dia bonito e soalheiro.

O Mário, era o meu amigo Mário Picamilho, e a Tia Isabel, era a mãe dele. Que Deus os tenha em bom lugar.

 

01-03-2011- Francisco Rolo 

 

 

A “ Encomendação das Almas”:

 

A Capela de Santa Maria Madalena fica situada no bairro do mesmo nome, em sítio de fácil acesso e de identificar pelo seu estilo de construção antiga.

Ultimamente tem sofrido bastantes obras de melhoramento e conservação. Este património religioso foi sempre visitado por muitas pessoas devotas da Santa e por estudiosos de arte sacra.

A sua construção talvez remonta aos primeiros séculos do Cristianismo. No seu interior existem três imagens de madeira: a da capela-mor é de Santa Maria Madalena; a do altar lateral esquerdo é de Nossa Senhora de Belém e a do lado direito é de Santa Isabel, talvez prima de Nossa Senhora, e mãe de São João Batista.

Nela eram sepultados os ricos, no interior, e os pobres no adro, à volta da Capela.

Depois da construção da igreja (1657), já se sepultavam os ricos na igreja, e os pobres, continuavam a ser sepultados no adro da Capela; isto durante largos anos, até  à construção do Cemitério Público em 1903.

Também é notável por ter as últimas três cruzes do Calvário, em pedra, no adro.

Lá termina a Via-Sacra do Calvário, que se realiza todos os anos na Sexta-Feira Santa. A devoção da Via-Sacra permanece viva e actual. À última vão quase todos os homens, mulheres e jovens da nossa terra, sempre com muito respeito. Agora é feita pelo Senhor Padre, mas dantes não era. Dizem que quem vai à última vale por todas!

Mas passo ao episódio das Almas, que o meu pai – Rodolfo – nos contava na nossa infância:

Havia um homem chamado Senhor Vieira, que morava na sua casa ao lado da Capela e costumava ir à varanda todas as noites, antes de se deitar, encomendar as Almas. Era o pai do Senhor Augusto Vieira e da Senhora Gertrudes, que eu bem conheci.

Então rezava com a seguinte invocação – musicada -: “ irmãos meus, pensai na morte; e no dia de Juízo; o inferno é muito feio; Deus nos leve ao Paraíso”.

Em seguida rezava um Pai-Nosso e Avé-Maria.

Aconteceu que, em certa noite, quando ele em voz alta recitava esta prece, viu uma procissão apressada de vultos vestidos de branco e com archotes que riam e corriam às gargalhadas: “Áh; Áh; Áh; Áh;!.

O Senhor Vieira teve tanto medo que se retirou para dentro da casa e nunca mais encomendou as Almas.

Conclusão: Quem seriam aqueles vultos?

As Almas ou algum grupo de atrevidos que quiseram pôr medo ao homem?

A verdade é que o Senhor Vieira nunca mais encomendou as Almas.

Um costume que se perdeu!

 

*Maria Raquel Barros Alves – Maio de 2010

 

 

Festa de São Caetano:

A nossa festa foi e, continua a ser, no segundo domingo do mês de Agosto….,

Em tempos passados, a festa, era dia de festa, com muito gosto, animação e ansiedade. Adornavam-se muitos andores, cada qual inspirado no mais bonito Santo da Paróquia, com o de São Caetano a marcar diferença, estes, a cargo, quase sempre, do Andoreiro de Fornos do Pinhal, Senhor Pinheiro; eram tão grandes que era preciso força e habilidade para continuar o passo, mas a mestria dos orientadores, -  Benjamim Picamilho e Aniceto Picamilho , e,  Amador e António “Arrobas” - , no percurso dos quatro bairros, fazia com que tudo corresse afinado.

Começava o dia com o mais entusiasta e melhor pirotécnico  da nossa terra, o Toninho Rôlo, que nem dormia na véspera, para nos deleitar com a sua alvorada de morteiros e muito mais ao longo do dia. De tão  entusiasta nesta arte,  penso, que nem tempo tinha para ver o grandioso  espectáculo.

Eram dois fogueteiros – de fama - ao despique, num arraial digno de ver e apreciar, e o CHARRUA de Vilarandelo  até só p’lo nome, fazia estremecer as redondezas.

Havia copos por todo lado e a “pucarinha” nunca faltava para os amantes deste jogo, que só conseguiam ver os dados e as cartas com a ajuda do gasómetro ou lampião. A roleta dos realejos, navalhas e outros utensílios, fazia “cegar” os mais jovens.

Havia também duas bandas de musica ao desafio.., qual a melhor. Vinha uma "planta" de electricidade "portátil", para fornecer o gira-discos com quatro "bocas" de altifalantes instalados no cimo da Capela, a iluminação das bonitas Igreja e Capela do nosso devoto São Caetano, e ainda, as lâmpadas dos lugares adjacentes. O motor que a gerava, ficava instalado por traz da Capela, pois nem o barulho e os cântaros de água que gastava para o arrefecer, incomodavam o pessoal. A aparelhagem sonora tocava e dedicava discos às namoradas(os), e a poeira do baile do arraial era sinal de uma festa viva e muito animada, que nunca terminava antes das três ou quatro da madrugada, com, por vezes, alguma intervenção pelo meio da Guarda Republicana a repor a ordem nalguns, com copos a mais.

 De manhã cedo, os miúdos, ainda com o sabor na boca de  alguns pirolitos e outros açucarados refrescos com água da fonte, apanhavam molhos de canas dos foguetes rebentados no arraial e olhavam para o desgaste dos sapatos – de pano, é claro – e restante vestuário, que teriam de durar  até à próxima festa . Enfim…, memórias de outros tempos que jamais esquecerei.

A bênção dos rebanhos, do gado bovino e outros animais, acontecia logo pela manhã. Cada pastor ou proprietário, levava o seu rebanho ou outros animais para a bênção; davam umas voltas à capela, conforme a promessa feita, e todos estes ficavam benzidos…,. Por vezes tornava-se difícil segurar alguns rebanhos de gado, só conseguido com a ajuda de vários populares que assistiam. O produto de algumas destas promessas, -centeio, etc. - , era leiloado em conjunto com outros artigos de outras promessas ao Santo na parte da tarde, onde também não faltava grande animação e até alguma disputa à mistura de quem arrematava e contribuía mais para o Santo.

Nesse dia, os tradicionais CORDEIRO e  ALETRIA enchiam a farta mesa de todos, bebia-se o melhor vinho -  pré-reservado - e tudo era em honra de SÃO CAETANO.

Novembro de 2009  -  Carlos Sá

 

 

Memórias do último Regedor de Santa Valha:

O Regedor foi uma antiga autoridade civil administrativa de uma freguesia, que até 1940, era o representante do Governador Civil, da sua confiança e por si nomeado. A partir dessa data, passou para a confiança e nomeação do Presidente da Câmara, com base no Código Administrativo dessa época (1940), que também o podia exonerar. Era, por isso, também a autoridade policial. Tinha que ser um residente local alfabetizado, com sentido de responsabilidade e bem conceituado no meio.

Era a ele que se dirigiam as queixas por desacatos em toda a freguesia. Caso não as conseguisse resolver e repor a ordem pública, deveria chamar de imediato a autoridade (GNR) mais próxima. Para além desse trabalho, tinha outras competências atribuídas: resolver zaragatas; roubos; policiamento de toda a freguesia, agindo de modo a garantir a ordem, a segurança e a tranquilidade pública. Ainda, acompanhar as autoridades; publicação de Editais e Posturas Municipais, verificação de Licenças de Obras e outras Leis e Regulamentos Administrativos; informações diversas pretendidas pelo Governo Civil ou Câmara Municipal e ainda, censo da população; carimbar vistos da presença e/ou passagem da GNR pela freguesia, e até levantar autos de transgressão. Também auxiliar as autoridades sanitárias, garantir os regulamentos funerários, mobilizar a população em caso de incêndio e cumprir outras ordens ou instruções emanadas do Presidente da Câmara Municipal. Tinha ainda poderes para prender e, até, se necessário, castigar os faltosos, quando estes não se comportavam correctamente. Podia entrar em casa de qualquer pessoa, mas apenas entre o nascer e o pôr-do-sol.

Em todas essas tarefas, era coadjuvado normalmente por dois Cabos de Polícia, ou até mais, conforme a densidade populacional da freguesia, também conhecidos por Cabos de Regedor, pessoas de confiança do Regedor, propostos por si, ou pela Junta de Freguesia ao Governador Civil, e, mais tarde, ao Presidente da Câmara Municipal. Na ausência dos Cabos e em situações excepcionais, o Regedor, podia pedir  auxílio a um militar (tropa) que eventualmente estivesse na aldeia de fim-de-semana ou em férias, mas teria que fardar-se obrigatoriamente à militar. Este, tinha que obedecer.

Tanto o Regedor, como os Cabos de Polícia, recebiam no acto da posse, o respectivo Alvará do cargo e o carimbo de autoridade, faltando a maior parte das vezes a almofada para o molhar, que era adquirida a custo do Regedor. Não tinham qualquer remuneração (salário) e, se porventura, fossem chamados pelas Entidades do Estado para prestar quaisquer informações ou esclarecimentos, a maior parte das vezes deslocavam-se a pé, pois não recebiam qualquer importância para o transporte ou outros gastos.

O último Regedor a exercer este cargo na nossa freguesia, foi o Senhor Artur Domingues Gonçalves, também conhecido entre nós por Artur feijão. Nasceu em Santa Valha no dia 05/04/1927 e exerceu o cargo de 1968 a 1976. Foi proposto ao Presidente da Câmara, na pessoa do Sr. Dr. Morais Soares, pela Junta de Freguesia de então, presidida por Victor Teixeira Neves. Os Cabos de Policia que o coadjuvaram até à exoneração (1976), foram Manuel Carolino (do Gorgoço) e Amadeu Moreiras, também conhecido por Amadeu “Pedreiro”.

 

Últimos Regedores e Cabos de Polícia da nossa Freguesia

Regedores: Domingos de Castro Alves; Benjamim Picamilho; António Ribeiro(?); António Morais (Ferreiro); José Ribeiro; Raul Victor Videira; Gualdino Nogueira; João Barrosão, e, por último, Artur Domingues Gonçalves, que ainda se encontra entre nós e de que muito nos orgulhamos.

Cabos de Polícia: José Vicente Gonçalves; António Morico; Alberto Santos (Moleiro); Álvaro Alves (Pardelinha); Adriano José Garcia da Mata; Manuel Mota Barrosão(?); Cândido Catalão; Francisco Fontoura Fernandes; António Teixeira; Serafim Gomes (Gorgoço); Manuel dos Santos Vaz, mais conhecido por Manuel Carolino (Gorgoço); Francisco Barreira (Gorgoço) Sezinando Vaz (Gorgoço) e Amadeu Moreiras, falecido em 2001. No mundo dos vivos só estão: Adriano da Mata, Manuel Carolino, Sezinando Vaz e Serafim Gomes, que também nos honra a sua presença.


O Regedor tinha direito a usar pistola ou caçadeira, fornecida, ou não, pelo Estado, mas devidamente licenciadas. No exercício das suas funções, mais propriamente a  exercer a sua autoridade, o Senhor Artur, nunca necessitou de usar qualquer arma de defesa pessoal, nem nunca foi necessário recorrer à força, proferir palavras mais rudes e/ou insultuosas para quem quer que fosse. No cargo, sempre teve uma postura irrepreensível e todos o respeitavam. Enfim, “uma pessoa de bem”, que em primeira instância tentava manter o respeito, a ordem e a harmonia, junto da população da freguesia.

Já quanto aos Regedores e Cabos de Polícia da nossa freguesia, que lhe antecederam, quase todos eles foram portadores de armas de defesa pessoal e, até alguns, chegaram a utilizar a força em várias situações.

Antes dos Regedores, tinham existido os Comissários de Paróquia, nomeados em 1832 ou 1834. O Código Administrativo de 1836, substituiu o Comissário de Paróquia pelo Regedor, com competências semelhantes, se bem que houve algumas modificações ao longo da sua existência, mas genericamente eram análogas aos Administradores do Concelho. A última regulamentação dos Regedores, foi estabelecida pelos Códigos Administrativos de 1936 e 1940; partir dessas datas deixaram de ter o estatuto de Magistrado Administrativo.

Após o 25 de Abril de 1974, (fim do Estado Novo e entrada da Democracia) com a aprovação da nova Constituição da República (1976), algumas competência de regedor foram transferidas para a Junta de Freguesia. Ainda que a Junta de freguesia seja um órgão colegial, constituído por um Presidente, um Secretário, um Tesoureiro e Vogais, a figura do Regedor acabaria por ser transferida para o Presidente da Junta de Freguesia, sendo, por consequência o seu equivalente no novo regime constitucional.

 A figura do Regedor de Freguesia foi totalmente extinta na sequência da introdução da Constituição da República de 1976.

 

Nota: A maior parte destas memórias foram colhidas por mim, junto do “nosso último Regedor”, Sr. Artur, pessoa, que, apesar dos seus 82 anos, ainda é portador de uma lúcida e excelente memória, não só para contar esta história, como também muitas outras que já lhe ouvi, quer do seu tempo, quer dos seus pais e avós.

 

Poderão, muito provavelmente, ter existido mais Regedores ou Cabos de Polícia, mas foram só estes que de momento lhe vieram à memória.

Santa Valha, Outubro de 2009

Amílcar Rôlo (Lilo)

 

 

Poema de uma Ponte de Santa Valha:

 

A ponte de Entre-as-Águas,

Que causou tantas mágoas,

Foi feita por três doutores,

Um cego e aleijado,

Outro mal via coitado,

Mais um Professor.

Esclarecimento:

*Cego e aleijado:  António Avelino da Cunha (Toninho).

*Mal via coitado:  João José Cardoso, também conhecido por João Ribeiro.

*Professor: Carolino Augusto Afonso

A ponte veio a cair logo após a sua construção, devido a umas chuvadas mais fortes. Passou-se no início da década de 1950, e todos esses (mestres de obras), pertenciam à Junta de Freguesia de então.

Benvinda Cagigal (Bendinha)

Agosto/2009

 

 

A pedra de lavar o porco:

Recordo, nos meus tempos de criança, a matança do porco. Era uma festa e um símbolo de uma casa farta. Antigamente, as famílias, matavam o Porco para comerem durante o ano. Nos meses de frio, normalmente, Dezembro e Janeiro, matava-se o dito cujo.

 A carne, a maior parte dela, era utilizada em muitos manjares, as melhores, naquele mês, como as costelas assadas e o lombo do porco, “ de vinho e alhos” e outras, “salgadas”, durante todo o ano, que utilizavam para matar a fome nas lides diárias do campo.

Quem não se lembra de uma (d)escavada, apanha da azeitona, etc. etc. e,  depois,  ao mata-bicho, uma alheira na brasa, ou melhor, uma linguiça, ali mesmo no local, sabia pela vida.

Havia vários matadores ou sangradores em Santa Valha. As famílias convidavam os amigos, que também serviam de agarradores, para trazer o Porco até ao banco de sangria. Depois do Porco estar morto, passava-se à limpeza dos pelos do couro, com palhas acesas. Neste acontecimento, seguia-se “quase sempre”, uma espécie de "ritual"; as crianças das famílias que assistiam ao acontecimento festivo, e às vezes outras, eram mandadas ir a casa de uma qualquer pessoa, para lhe pedir uma pedra boa “e especial”, para lavar o Porco. As crianças (inocentes), não tinham conhecimento desta brincadeira e lá iam, pensando estarem a fazer uma tarefa importante e útil. Chegados à casa indicada pelos mais velhos, pediam então a dita pedra emprestada para lavar o Porco; estas, que  já tinham conhecimento da tradição, diziam-lhes que a não tinham com eles e que estava na casa de outro fulano. Então, chegados a casa do outro fulano, as mesmas palavras repetiam-se, e andavam as crianças ( quase toda a manhã), a correr o povo, à procura da pedra, pois todas as pessoas da aldeia, conheciam a tradição da pedra de lavar o porco.

Quando chegados, passados uns bons minutos (ou mesmo horas , já após o comer do sarabulho) ao local da matança do Porco, e sem a pedra, logo se apercebiam que foram enganadas, pois as gargalhadas,  indicavam a brincadeira.

Recordo, (que algum me disse), que ao Pereira, lhe deram mesmo uma pedra de vários quilos, mal podendo com ela, e a levara para lavar o Porco . Também ouvi falar, que essas pedras de vários quilos de peso, eram colocadas dentro de um saco de sisal, muito bem apertado, para não se aperceberem o que levavam às costas e com a indicação de terem muito cuidado com o seu transporte, para não se estragar.

 

Carlos Vieira

02 de Março de 2009

 

 

O “Porquinho” de Santo António:

Era habitual, até meados da década de 1970, algumas pessoas da nossa freguesia e de outras, é claro…, quando tivessem fêmeas (porcas) em “casa” a parir, fazerem uma promessa a Santo António, da oferta de um porquinho, se no parto do animal, tudo corresse conforme desejado.
A esse animal “porquinho”, ainda na fase de “leitão”, era colocado um chocalho no pescoço, para toda a gente da aldeia saber onde se encontrava, já que vagueava dia e noite pelas ruas de todos os bairros, “roncando e chocalhando, é claro” e toda a gente lhe dava de comer ao passar à sua porta.
Quando já estivesse na fase adulta, (aí com cinquenta quilos), o animal, também conhecido no meio rural por “reco”, era retirado da rua e da liberdade , e ia a leilão, à saída de missa, para quem o pretendesse comprar, no sentido de o acabar de engordar (cevar) e servir na anual e tradicional matança familiar. O produto do leilão era então oferecido à igreja como esmola para o Stº. António.
Esta promessa, deixou de se fazer (por volta de 1974/75), quando começou a aparecer em todo o País, um vírus, denominado por peste suína africana, vitimando muitos animais e que se prolongou por alguns anos até ser erradicada. Também com o fim da ditadura e com a entrada da democracia, a qualidade de vida das pessoas melhorou substancialmente, sobretudo na forma como as pessoas passaram a viver.

Nota: Também era habitual as pessoas oferecerem fumeiro, com o mesmo fim, leiloado ao longo do ano, à saída de missa.

Amílcar Rôlo (Lilo)
Santa Valha, Janeiro de 2009

 

 

A dança do lobo:


Os lobos são resistentes, inteligentes. O Sr.. Inverno, era tempos de muitas dificuldades, as Nuvens não deixavam de chorar, valentes debatíamo-nos contra ventos fortes de arrasar, dias e noites a chover, geadas, nevadas típico da nossa zona. Lutava-se com a Natureza, lá vivíamos algo gelados. Corria água forte por todos lados, os ribeiros e quebradas cresciam tanto, que ás vezes não podíamos passar, dávamos a "volta" mais longe. Na noite escura, era um  andar no vazio, tudo recolhia a casa e estábulos. As noites  estrelada é quem mais admira o firmamento. O pastor protegido, andava sempre de capote, com uma manta e polainas, leva consigo algum cordeirinho nascido ou ainda fraco. Pastor e cães comiam quando lhe levassem o TERNO.
A dança do lobo, rapidamente passava de ouvidos, anda aí um lobo (ás vezes tratava-se de uma alcateia) quando chegava a surpresa furtiva, era mesmo aterrorizante. No CARRETO o pastor, de cajado a seu lado, dormia vestido de olhos e ouvidos abertos, nem sempre havia cancelas de protecção para rebanho, com ajuda de dois ou mais cães, enfrentava sozinho intimidar e defender o rebanho de lobos esfomeado, mas às vezes já era tarde, havia noites de várias surpresas falhadas. Dormia no CARRETO abrigo quentinho, era um carro de bois, teto em forma de V feito só de palha bem arroupado, o colchão era bastante palha a granel. Mesmo assim, sempre gostámos da nossa típica SANTA VALHA bondosa, com fragas desafiando a gravidade  >>> TENHO SAUDADES <<<.

Carlos Sá.
 

 

Tradição:


O Vinho por excelência, é um dos melhores produtos em todo País, como qualidade, respeita-se o vinho de Valpaços. Domingo, de manhã ia-se á MISSA  os mais velhos passavam as tardes de Domingo adorando até à última gota, quem tinha uma pipa, enquanto não se acabasse não saiam de deixar de voltar. fortalecia a amizade. Havia algumas tabernas, agora já tem nome mais bonito ( diz-se-lhe café ).

Havia uma TRADIÇÃO para não beber o juízo  tirava-se o chapéu, se estivesse alguém no lugar, levantava o copo em sinal de brindes e dizia " são servidos" ?
às vezes aceitava-se, se fosse forasteiro teria também que aceitar, ao menos outro copo igual, era proibido deixar para o amanhã. Era tradição antiga.
Quem fosse pedir dinheiro emprestado, descobria a cabeça, resultava pedir com o chapéu na mão.

Carlos Sá.

 

O Vinho Namora:


Era herança tradicional, quem se enamorasse em Santa Valha é porque era nosso amigo, era porque aqui encontravam-se as mais BELAS bonitas raparigas de todo Trás-os-Montes, sabiam fazer boas merendas, eram capazes de tudo, mas muito tímidas. Não havia problema com o ser Maria-Rapaz, destemidas, capazes a par no dia a dia, até nos afazeres mais RUDES semear, colher, vindimar, etc. Serviam de pastoras (não tinham tanto medo aos lobos, nem à "bicharada" a vindima e a azeitona era mais depressa quando algumas vinham no nosso grupo, tínhamos BARBYs. ( Os rapazes sempre derretidos em "atenções" especialmente ao ir á fonte) os que ajudaram a levar o cântaro vazio, era para sonhar, nem que fosse á distância, perseguíamos. Não havia maior problema andar com Bois ou Cavalos. Havia certa crueldade, os varejadores na azeitona ao subir ás oliveiras mais altas, se bem que estava frio, faziam-no descalços, distraídos, alguma rapariga lhe havia mijado nos SÓCOS era um prémio que só as mulheres sabiam. O vinho namora ( produto desconhecido ) um Almude, teria que beber e dar a beber aos presentes, concentravam-se em cordialidade e vinham mais almudes, era injusto Gorgoço, Calvo, Pardelinha tinham que pagar, senão não havia namoro. A causa de não querer pagar o vinho, a rapaziada de Sonim foram proibidos até de passar na "nossa" estrada, passavam a pé pelos montes. Nos dias de feira de Vilarandelo, escondidos lá se metiam na carreira, vinha outra promessa falhada, o Sr. Paulino sempre ajudava. Ninguém acreditava que a coisa era tão a sério, então o Sidónio de Valpaços lá porque era do tribunal, quis ignorar a tradição desconhecida, prometeu e prometeu, mas para continuar teve que pagar o vinho. Igual que o Adelino de Soním, o Heitor de Barreiros. Marcou logo o dia, certamente agora estão felizes por ajudar a continuar a nossa tradição, era uma emoção de alegria, tinha-se outro amigo dos nossos.

Carlos Sá.

 

 

Viva Jesus Cristo, Viva Santa Valha:

A Nossa Igreja era Bonita, é BONITA nós somos a própria Igreja...! O nosso Sr. Padre João sempre na mesma PIA abençoava e o Sr. Victor "kico" ensinou a luz. Nunca tivemos maiores calamidades, em 14 anos de guerra colonial, todos regressámos a casa. Todos Domingos éramos convocados a assistir à missa. Repicados os sinos em forma de festa, reuníamos todos misturados. Vinham de mais longe Santa Valha, Calvo, Gorgoço e Pardelinha. O nosso cantar na missa, era melhor do que uma banda bem afinada, certamente vibravam telhas do telhado, vivas ao nosso povo. O dia de RAMOS anuncia a Páscoa. Todos afilhados adornava-mos de bolachas e rebuçados, um ramito normalmente de "Oliveira" bendita, para desejar felicidades aos Padrinhos, e lá íamos até chegar a casa. Então os Padrinhos satisfeitos com tal gesto davam sempre a BENÇÃO recordação, nem que fosse só merenda. A Páscoa era Bonita, penso que ainda se conserva o nosso FOLAR tradicional. Na Festa a S. Caetano, havia sempre melhor comida e vinho até demais, havia música de altifalante e duas bandas de música que tocavam até amanhecer. Fazia-se a apresentação dos rebanhos de ovelhas dando volta á Capela de S. Caetano. Era bonito porque não queriam deixar de correr. No dia de todos os SANTOS grupos de rapazes e raparigas faziam piquenique, comia-se maçãs, uvas, etc. Cantavam e dançavam e inaugurava-se o 1º tradicional MAGUSTO do ano, com jeropiga . Nos dias "noite" que vinha a Sagrada Família a casa, todos tínhamos que estar reunidos para lhe dar as boas-vindas. Agradecidos ficávamos com a verdadeira paz. O Natal era por excelência outro nosso dia belo: no dia 24 consoada, a ceia era tradição o polvo, o bacalhau, produtos do Mar, para nos mantermos acordados, jogava-se o RÁPA com pinhões e rebuçados, era mesmo uma festa esperando o Menino JESUS . Cerca das 22 horas, fazia-se (faz-se) no centro da praça, a fogueira ao Menino Jesus, a fogueira ainda é tradicional não se pode apagar, mas se chovesse voltaria a acender-se, fosse á hora que fosse, haveria que ir pedir,"roubar" lenha, não havia tempo para pedir, tudo o que ardesse, ia parar ao fogo. Por hierarquia uns zelavam manter acesa o lume, quem tivesse melhor colheita, dava de bom agrado, vinho frutos secos e castanhas assadas, depois de bem bebidos, porque realmente está frio, havia quase certo zaragata, mas tudo terminava em bem. Quem quisesse aquecer-se, teria que trazer lenha ou vinho, havia regras para puxar conversa.

Carlos Sá.

 

Santa Valha era bonita:

 já não terá pernas tão belas, mas para os seus filhos é a mais bonita do Mundo. Para onde vamos nunca lhe esquecemos, sempre vive o desejo, a vontade, de renovar aquele ABRAÇO que nunca deixa de crescer. Vista de pontos mais altos, admirava-se o vento fazendo ondas na seara, o lindo de frutos em flor, era BELO...com as mãos houveram quem mudou fragas para tornar o lugar próspero. Tivemos homens o suficiente valentes para construir o dia a dia, lutar contra lobos e ganhar, perseguir ratos que destruíam colheitas, etc.Santa Valha era rodeada de tudo o que é verde, o ar era mesmo puro, grandes pinhais inundavam de enxofre a  região. Pardelinha daí tenho raízes, é por excelência o nosso ponto satélite, já "deserta" lá no alto sempre a subir LISBOA não sabe, ou nunca quis saber. Vivíamos entregue ao meu próprio eu, e á lei do CRIADOR. Morreu-se sempre sozinho, desnutrido, esfarrapado agarrado ao CAJADO pouca importância põem ao nosso Mirandês, aqui existe a melhor água de nascente  natural " será medicinal? " deixa até melhor
sabor aos alimentos. Naquele tempo todos trabalhávamos, até o Sr. Padre João, cultivava a sua própria horta da casa. Lavava-se a roupa no Ribeiro, havia que ir cedo para conseguir os melhores lugares, as mulheres falavam, cantavam e até choravam qualquer desgosto.
Sou descendente dos "Reais" Castros, dos Mourões, dos Fontouras. Agradeço a quem me estimou, perdoados momentos menos felizes.
É fácil entender que eu tenho mesmo, uma costela do meu POVO. De Santa Valha sou. Santa Valha era bonita, tínhamos tudo menos electricidade, vivia-se às escuras com a candeia a petróleo. Naquele tempo tínhamos os nossos próprios  artistas e instrumentos musicais, o " Realejo " havia muitos, a "Concertina/Acordeão" havia algumas (Adamastor) , e o " Acordeão " tradicional de tabuinhas, tínhamos um bom " Violinista "  ( Toninho Vieira ) . Nos verdejantes campos havia muita fauna ,lá longe alguém repetia as canções do então. Era festa nas vindimas, nas desfolhadas, nas malhadas, etc. Domingo à tarde visitava-se algumas adegas, fazia-se o bailarico na praça e na ponte da estrada. Mário Pica-Milho, o Capela, sempre harmonizavam  que as tardes fossem de convívio, se alguém de carro quisesse passar, teria que esperar que alguém autorizasse, porque o baile não podia ser interrompido. Quem viesse a Santa Valha escolher namorada, fosse quem fosse, teria que pagar o vinho (era tradição). Os Rolos organizavam o Carnaval e a partida do " BURRO " contra a vontade da GNR nem que fosse madrugada, havia que partir o burro. Tínhamos um Padre, um Sacristão, uma Padaria ,dois Professores, duas Escolas, três Alfaiates, dois Barbeiros, dois Ferreiros, um sóqueiro, duas moagens de azeitona, uma moagem de farinha, etc. Tínhamos o muito QUERIDO Dr. Olímpio Seca, sempre atencioso a consultar, se a doença fosse urgente, de imediato havia sempre lugar no seu carro, a estrada Vilarandelo a Pardelinha deveria levar o SEU nome. Tínhamos o "porco" de Santo António (nossa mascote) A TODOS estes e outros merecem que se fale, que se recorde, bons tempos.

Carlos Sá.
 

 

O Entrudo:

Os Caretos, a garotada fugia a sete pez, se viam era de longe, os Caretos Gigantones, a fanfarra a anunciar, e algumas bombas portátil de carnaval; "festa" para espantar males. Os Rolos organizavam e saíam da casa do Zé Rolo (Rolos Toninho, Manuel, Chico, João e outros convidados) de continuar, deve saber-se que os Rolos são os herdeiros legais, até na partilha; todas raparigas solteiras ou mulheres sós, quase a todas se lhes dava nem que fosse um "pinote" todo era uma riza. Só a G.N.R. é que se opunha, mas nunca tiveram sorte levar ninguém preso. O enterro do Entrudo, a partilha do burro, a carreira dos rebanhos na capela de S.Caetano, a fogueira do menino JESUS, o vinho namora, o porquinho de Sto.António, os cassápos de Pardelinha, era tradição única patente NOSSA temos motivos para exigir nosso feriado nacional. ( A partida do burro brincadeira de mau gosto ninguém tomava tanto a mal, o atrevido "indesejável" ENBUDE (não havia megafones) era da nossa tradição, até o Sr. Padre recebia um sermão, terminava em riza colectiva.

Carlos Sá.